quarta-feira, 4 de março de 2015

#samuel

Hoje é um dia particularmente triste. Soube hoje que o Samuel se matou e vai ser cremado amanhã. O Samuel era um adulto na minha infância. Ele é da geração das minhas tias e foi através de uma tia que pude privar com o Samuel em criança. Não éramos próximos mas ainda me lembro do sorriso do Samuel. Não era um rapaz lindo mas tinha a sua beleza, reforçada pelas covinhas nas bochechas sempre que se ria.
Passaram-se anos em que nem me lembrei que o Samuel existia e de repente, no momento da notícias, revivi tantos momentos felizes de criança que passei na casa de praia do Samuel. Era sempre divertido estar em casa do Samuel. A casa estava sempre cheia de amigos, pessoas diferentes mas tão interessantes! Eu era menina mas adorava ouvi-los conversar nas suas longas tertúlias pela noite dentro. Tive tantas paixonetas de menina naquela casa. Adorava as horas de Pictunary regadas a cairipinhas (que eu supostamente não deveria beber lol), a parede do corredor só de assinaturas, dedicatórias e marcas das alturas da malta. Era difícil para mim vir embora.
E é no momento que sei da tua triste partida que me lembro de ti. Revivo os momentos de afortunada felicidade que tive junto de ti. Apetece-me pedir-te desculpa. Lamento que tenhas partido no vazio da solidão. Lamento que a coragem de partir tenha sido maior que a coragem para ficar e não desistir.
Pergunto-me pensando nisto, o que no momento nos pára ou não de avançar para a morte.
Eu própria tive vários momentos em que não tive a coragem mas desejei. Muitas noites durante vários anos ou em diversos períodos, em que a minha oração ao me deitar era de que os meus olhos não voltassem a abrir. Precisava que fosse por intervenção divina porque não tinha coragem de concretizar. Sim, é preciso ter muita coragem. Imagino que a coragem tenha de ser do tamanho da dor para que se consiga abraçar a morte assim, auto-infligida.
Já para viver, não sei ao certo qual é a medida de coragem necessária. Talvez baste apenas ser cobarde em relação á morte. Talvez baste deixar que o corpo faça a sua função enquanto a nossa alma passa pelo período de incubadora, anestesiada pela dor, enquanto o nosso espírito luta uma batalha superior. E no momento em que saímos deste espécie de coma, no momento do novo fôlego, talvez baste a ousadia de respirar fundo, dar um grito de guerra e deixar-mo-nos guiar! Talvez baste um pouco de Fé!
#adeussamuel