Desconhecia esta dor. Chegar a casa para a dor do vazio da tua ausência. A ausência da tua existência. Foste mais do que eu imaginava que um cão podia ser. Nunca soubeste brincar como eu estava habituada a que um cão brincasse, nem sabias "dar beijinhos" mas a tua essência era tão especial que não precisavas de nada disso para captares a atenção, o carinho e a admiração dos humanos à tua volta.
Trazias contigo uma história de vida, que as tuas mazelas físicas mostravam e chocavam. No entanto, a humildade do teu comportamento e a ternura dos teus olhos ensinavam a todos quantos paravam para te conhecer, que eras maior do que a dor pela qual tinhas passado. E ninguém ficava indiferente. Vezes sem conta te chamavam de "lindo Preto"porque irradiavas uma beleza interior muito especial. A beleza de um sobrevivente que escolheu o Amor ao trauma. Até a última veterinária que te conheceu por breves horas, disse que "o Preto é um Senhor!".
Foste o meu companheiro em 9 anos, durante os quais passámos por tanto juntos e em que vários momentos não fui a melhor dona mas nunca me deixaste de olhar como se estivesses eternamente apaixonado por mim... Sinto falta de te abraçar e cheirar. Ainda consigo ter a sessão do teu cheiro mas sei que, infelizmente, vai acabar por desaparecer. Mas mesmo que a percepção dos sentidos seja efémera, o impacto da tua existência na minha vida será eterno!
Cuidar de ti e amar-te, fez-me crescer. Testemunhar o teu exemplo de vida tão perto, fez-me querer ser uma pessoa com mais compaixão, com mais perdão e mais humildade. Aprendi a ser paciente com os outros e comigo mesma. Conseguias trazer-me paz na inquietação, fazendo-me viver o momento presente e ser grata por ele, simplesmente pelo poder do Amor.
Perdoa-me se nem sempre fui compreensiva. Ainda há muita imperfeição em mim.
Acolhi-te no dia em que sofreste o último atropelamento e agora partiste sereno nos meus braços como quem estava preparado para descansar... Ver-te partir com dignidade, não atenua a dor da tua ausência mas deixa-me orgulhosa de te ter tido na minha vida e sinto-me privilegiada por me teres escolhido para estar contigo nesta travessia. Obrigado!
Não sei como funciona esta questão dos animais não terem alma mas não me parece que, o que está no depois, tenha importância. O que importa é que foste criação de Deus e que os nossos caminhos se cruzaram e a Ele agradeço.
Agora resta-me ganhar força para me levantar do sofá quando acabar de escrever estas palavras e guardar as tuas coisas... coragem para reaprender a usar o espaço e o tempo sem ti, cada vez que entrar em casa... mas te prometo que vou fazer o melhor que puder para fiques orgulhoso de mim e sempre que achar que não tenho forças, vou pensar em ti e no teu exemplo de resiliência e coragem.
Pensei que fosse começar o ano a cumprir um dos pontos da lista para 2016 mas afinal não. Comecei o ano a fazer panquecas e a ouvir o concerto de inicio de ano em Viana de Áustria, o que não deixa de constituir um bom presságio.
Compreendo as pessoas que acham hipocrisia e exagero celebrar a passagem do ano como um marco único. Bem, na verdade depende da coerência e da maneira de cada um estar na vida.
Eu celebro esta data que para mim é a mais importante do ano. Nem o meu aniversário é assim tão importante! Celebro a passagem de ano interiormente, fazendo o balanço do ano a terminar e determinando os "novos" objectivos. Eu sei que a vida não é um videojogo, no entanto vivo cada ano como uma etapa ou um novo nível... e porque não? Acima de tudo o importante é que não se deixe passar, ano após ano, sem uma reflexão e uma acção concreta e evolutiva. Se este processo é feito na passagem do ano velho para o novo, se é feito a meio do ano que decorre ou em mais um aniversário, é indiferente! O que faz a diferença é que haja uma atitude!
Pois bem! De pijama vestido e sentada na cama, a poucos minutos da meia noite, escrevi a minha bucket list para 2016. Mas não escrevi apenas as tarefas a cumprir, objectivos materiais a alcançar. Fui mais longe. Escrevi aquilo em que eu quero mudar. Como ainda à pouco li nas redes sociais, não é o ano que tem de ser diferente, nós é que temos de mudar!
Questiono-me se daqui a uns meses, ou até mesmo semanas, nos lembraremos destas máximas. Por isso, mais importante que partilhar frases feitas no facebook, é escrevermos o nosso compromisso pessoal connosco mesmos como se de um contrato se tratasse. Um contrato de fidelidade e lealdade connosco próprios e que teremos de relembrar no decorrer do percurso que certamente estará cheio de tropeços e de contrariedades que nos vão fazer querer desistir.
E é precisamente porque não é fácil estabelecer compromissos que os devemos enfrentar. Criar esse movimento que inclui contrariar a nossa apetência para nos instalarmos nas zonas de conforto é como colocarmos um pionés na nossa própria cadeira!
Sou fã da decisão de mudar e do ato de mudança. Da mudança evolutiva, claro.
Considero que é um exercício da nossa liberdade que nos fortalece e nos faz crescer. Obriga-nos a olhar ao redor e mais além de nós mesmos.
Muitas vezes me senti deslocada por não ser resistente à mudança, e andar no sentido contrário à maioria.
Afinal, não são os estados de conforto e comodismo a antítese do movimento da mudança?
Há pessoas que desde cedo sabem o que querem da vida e cedo começam a construir isso com uma objectividade inquestionável. Há outras pessoas, como eu, que sentem o universo dentro delas e precisam de uma série de ciclos e mudanças na vida para poderem ver o que são e ser quem realmente são, conquistando o que as faz feliz. São caminhos com diferenças abismais mas não creio que um caminho seja melhor do que o outro. Sinceramente, acho muito mais piada aos carrinhos de choque do que ao carrossel.
Cada pessoa tem o trajecto que Deus acha necessário para construir e moldar o carácter e potenciar as suas capacidades de acordo com o que é o seu propósito.
Eu gosto de movimento. Eu gosto da mudança. Eu gosto de me sentir como uma peça a ser esculpida. Bela nas suas imperfeições mas inquieta na sua natureza por saber que a sua existência não serve a si mesma.
Sei que muitos me vêm como uma pessoa inconstante porque não escondo o meu caminho. Mas as aparências não me importam e as opiniões, muito pouco. Quem tudo sabe, tudo vê e isso me basta.
A propósito de aparências, adoro mudar de penteado e fazer cortes de cabelo diferentes mas pintar o cabelo de cores diferentes, já não gosto tanto. Não gosto de comer a mesma coisa todos os dias mas não deixo de ter alguns hábitos como é normal, aliás creio que por mais resistência que tenhamos às rotinas, elas são um elemento inevitável. Há sempre um padrão.
Há muitos anos que a Raquel presta serviços de catering no meu trabalho e todas as manhãs temos uma variedade imensa de pães, doces e salgados. Nestes 2 anos deu para perceber que a maioria das vezes ela diz, "é o costume?" ou então já reserva aquilo que ela sabe que certas pessoas vão pedir. Um dia destes não deu para evitar falarmos que eu não sou o tipo de óbvio de cliente habitual porque nunca peço a mesma coisa e ela nunca se vai poder adiantar ao meu pedido! E então?!
Acho que isso assusta a maioria. Ser previsível e fazer parte do previsível é mais seguro. No surprises. Pois eu digo, sem graça, sem vida, sem liberdade, sem fôlego.
Sejamos constantes no nosso carácter mas livres para sermos felizes!
Não é fácil decidir pela mudança. Há tanto envolvido num processo de mudança. Assim como uma mudança de casa implica o carrego de uma serie de pesos físicos, as mudanças na nossa vida implicam a libertação de uma serie de pesos emocionais, psicológicos, familiares, sociais, etc. Fundamentalmente do nosso ego.
Estamos constantemente preocupados com o que é esperado de nós. O que é suposto eu ser ou fazer para pertencer, para ser visto como uma pessoa séria, responsável, socialmente encaixada, bem-sucedida, popular... é uma lista grande, tanto quanto é a expectativa.
Vivemos presos a padrões e esquecemo-nos de ser felizes, que somos dotados de toda a criatividade necessária para não vivermos sobre as regras dos outros. Todos temos a necessidade de nos sentirmos aceites mas quando isso se sobrepõem à nossa felicidade, então não é aceitação mas mutilação.
Vejamos o enquadramento da mudança como o movimento das estações e tudo o que isso implica. Até a própria natureza lida com desafios e contrariedades ao que está estipulado pelo criador, como podemos presumir que o Homem está imune a esse fenómeno.
E a propósito do tema, mudei a aparência deste blogue mas mantive a sua essência.
Afinal, não é a essência que nos define e encerra em si mesma a resposta sobre o nosso propósito?!
Sejamos a mudança boa! Aquela que contraria a mesmice mas que não adultera a essência do ser. Aquela que decompõe os estados de conforto mas que não deixa que o nosso espírito se deteriore. Aquela que nos perturba porque nos deixa inquietos, sequiosos por mais… aquela que nos despe do nosso ego, como barro nas mãos do oleiro e nos leva a ser completos.
Jeremias 18
1 A palavra do Senhor, que veio a Jeremias, dizendo: 2Levanta-te e desce à casa do oleiro, e lá te farei ouvir as minhas palavras. 3E desci à casa do oleiro, e eis que ele estava fazendo a sua obra sobre as rodas. 4Como o vaso que ele fazia de barro se quebrou na mão do oleiro, tornou a fazer dele outro vaso, conforme o que pareceu bem aos seus olhos fazer. 5 Então, veio a mim a palavra do Senhor, dizendo: 6Não poderei eu fazer de vós como fez este oleiro, ó casa de Israel? — diz o Senhor; eis que, como o barro na mão do oleiro, assim sois vós na minha mão, ó casa de Israel.
Hoje é um dia particularmente triste. Soube hoje que o Samuel se matou e vai ser cremado amanhã. O Samuel era um adulto na minha infância. Ele é da geração das minhas tias e foi através de uma tia que pude privar com o Samuel em criança. Não éramos próximos mas ainda me lembro do sorriso do Samuel. Não era um rapaz lindo mas tinha a sua beleza, reforçada pelas covinhas nas bochechas sempre que se ria.
Passaram-se anos em que nem me lembrei que o Samuel existia e de repente, no momento da notícias, revivi tantos momentos felizes de criança que passei na casa de praia do Samuel. Era sempre divertido estar em casa do Samuel. A casa estava sempre cheia de amigos, pessoas diferentes mas tão interessantes! Eu era menina mas adorava ouvi-los conversar nas suas longas tertúlias pela noite dentro. Tive tantas paixonetas de menina naquela casa. Adorava as horas de Pictunary regadas a cairipinhas (que eu supostamente não deveria beber lol), a parede do corredor só de assinaturas, dedicatórias e marcas das alturas da malta. Era difícil para mim vir embora.
E é no momento que sei da tua triste partida que me lembro de ti. Revivo os momentos de afortunada felicidade que tive junto de ti. Apetece-me pedir-te desculpa. Lamento que tenhas partido no vazio da solidão. Lamento que a coragem de partir tenha sido maior que a coragem para ficar e não desistir.
Pergunto-me pensando nisto, o que no momento nos pára ou não de avançar para a morte.
Eu própria tive vários momentos em que não tive a coragem mas desejei. Muitas noites durante vários anos ou em diversos períodos, em que a minha oração ao me deitar era de que os meus olhos não voltassem a abrir. Precisava que fosse por intervenção divina porque não tinha coragem de concretizar. Sim, é preciso ter muita coragem. Imagino que a coragem tenha de ser do tamanho da dor para que se consiga abraçar a morte assim, auto-infligida.
Já para viver, não sei ao certo qual é a medida de coragem necessária. Talvez baste apenas ser cobarde em relação á morte. Talvez baste deixar que o corpo faça a sua função enquanto a nossa alma passa pelo período de incubadora, anestesiada pela dor, enquanto o nosso espírito luta uma batalha superior. E no momento em que saímos deste espécie de coma, no momento do novo fôlego, talvez baste a ousadia de respirar fundo, dar um grito de guerra e deixar-mo-nos guiar! Talvez baste um pouco de Fé!
Não há respostas fáceis ou óbvias. De repente, as frases feitas e as máximas que cada vez mais se partilham nas redes sociais, têm um gosto a comida rápida para o raciocínio e a corta-mato para processos que são pessoais e algo rigorosos, ainda que na sua forma mais grosseira, sejam transversais ao Homem.
Será que sou só eu que tenho a sensação de que tenho um constante quiz na minha cabeça, de perguntas que parece que nunca vão ter resposta? Quanto mais procuro, menos encontro. Por isso, quando me sinto a entrar em modo de loop, desligo a ficha.
No fundo eu creio que as respostas se vão formando como um puzzle... Pela regra da tentativa/erro... mas o puzzle só está completo quando todas as peças se encaixam... quererá isso dizer que todas as perguntas se responderão ao mesmo tempo?!
Quantas vezes questionamos as nossas decisões em oposição a constatar o erro do outro para connosco ou as circunstâncias que se levantam contra nós?... Não há uma saída fácil mas pode haver um caminho honesto.
A maturidade conquista-se consoante as várias camadas de névoa se vão levantando do nosso entendimento e a vida se vai revelando. Ainda assim podemos escolher não ver ou, podemos fingir que ainda estamos num nevoeiro serrado permitindo-nos ter uma desculpa para continuar a culpar tudo o resto sem assumir responsabilidades.
Também acontece, com alguma naturalidade, passarmos a partilhar a responsabilidade do outro sendo cúmplices no fingimento. Essa tendência é quase uma forma de auto-mutilação pela vergonha de assumir que gostamos de nós mesmos. Qual é o problema em assumir o que somos de bom e que quando não falhamos, é porque nos esforçámos e muito provavelmente tivemos de enfrentar medos e fantasmas para conseguir estar lá, naquele momento, sem falhar aos outros e a nós mesmos. Mais fantástico ainda é, depois de um momento desses, ter a capacidade de olhar para si e para o outro com a humildade de perceber que todos temos fragilidades e que apesar dos processos serem transversais, cada um tem os seus timings na percepção da vida.
É sem dúvida desgastante ter espírito de Gerónimo, sensibilidade de poeta e alma de vidro (ver texto “Almas de Vidro”) mas optar por uma visão limitada, também não me parece ser o caminho. A benção não é nem a ignorância, nem a ousadia desmedida. A benção é ter a coragem de protegermos o nosso coração sem ignorarmos o outro. É saber que, provavelmente na maior parte das situações na vida, dizer “não” ajuda tanto a nós como ao outro a encontrar mais rapidamente, a próxima peça que precisamos para continuar puzzle!
Recentemente ofereceram-me o livro “O amor é difícil” da querida Helena Sacadura Cabral. Quando este livro me foi oferecido realmente estava num período de amor difícil e pensei, que esta não seria melhor leitura para o momento. Mas na verdade este livro é um relato das várias formas de amor e tem sido uma leitura bastante reveladora.
“O amor é difícil” é um livro composto de várias histórias, segundo a autora, verídicas. Conforme fui lendo estes pequenos contos reais, dei por mim tanto a rir como emocionada, até que se criaram paralelismos entre trechos da realidade das personagens e a minha própria história.
E confirmou-se... não gosto do dramatismo que o amor em si encerra. Ou será que o dramatismo somos nós que o acrescentamos? A intensidade do amor é medida pelo seu grau de dramatismo? Seja como for, não gosto do dramatismo que se atravessa e que, de alguma forma, toca em cada história. Este destino quase lírico a que uma história de amor está sujeita, que quando visto de fora soa a romantismo, é triste mas ao mesmo tempo revela a nossa complexidade.
O encaixe de dois universos singulares, por mais que semelhantes aqui ou ali, é uma tarefa tanto grotesca como poética. As atitudes e comportamentos são cada vez mais imprevisíveis mas por outro lado padronizadas pela necessidade de Se estar no centro. Por isso, a determinada altura senti a necessidade de reinventar os conceitos. Não consigo ver o dramatismo pelos olhos do romantismo, da mesma forma como não consigo ver a incessante dádiva de prendas ao outro, como uma forma de afecto. É preciso mostrar o que está por baixo das nossas camadas. É preciso querer ver o que está por baixo delas. Temo-nos tornados peritos na camuflagem e na estratégia. Não consigo acreditar no amor assim, seja ele de que forma for.
Ás vezes considero que tenho uma visão muito primitiva do que é o amor, ao ponto de achar que o verdadeiro romantismo é a admiração, o carinho e a vontade que nos podem expressar com um simples olhar ou abraço, sem a necessidade de verbalizar qualquer adjectivo... e depois, o que fazemos a todas as palavras insistentemente proferidas, quando as atitudes rasgam com a relação? Reitero o que sempre soube que não gosto... o efémero. Não gosto!! Não gosto da ideia de fim... e porque não reciclar? (sorriso) Mas até para isso é preciso que se esteja em sintonia... ufa! Mas também não gosto das inevitáveis marcas que estes aparatos nos deixam na alma, na mente e nos comportamentos. Mas crê-se que tudo serve o seu propósito!
Bem, não é preciso andarmos sempre a levitar para nos apaixonarmos pela mesma pessoa todos os dias, ou nos momentos difíceis, nos relembrarmos do exacto momento em que nos apaixonámos por aquela pessoa e porquê. Uma das minhas mais belas histórias foi assim apesar de ter acabado. Todos os dias durante os anos da relação e mesmo depois de ter acabado, eu conseguia sentir precisamente o mesmo sentimento e recordar todas as razões pelas quais me apaixonei. Não deixa de doer mas não nos tira o sorriso no momento em que se viaja nas lembranças. Infelizmente nem todas as histórias, ou talvez, nem todas as pessoas deixam essa marca. No fundo as histórias, outrora realidade, foram protagonizadas e direccionadas por nós. Se as histórias têm de ser efémeros, pelo menos que nos deixem com um sorriso.
Afinal, é suposto amarmos os outros como a nós mesmos... com compreensão, aceitação e disponibilidade!
Dedico este texto ás pessoas que fazem questão de fazer parte da minha vida... e vocês sabem quem são... amo-vos com reciprocidade!
05 de Novembro de 2011 fez 3 meses que vim para a Holanda... 3 meses de eternidade, de saudade, de incertezas.
Sem qualquer tipo de expectativas na bagagem e com alguma apatia no bolso cheguei a Zeeland. Não posso mentir que o choque cultural não aconteceu, assim como não posso dizer que isto não é bonito, tão bonito como uma paisagem idealista imortalizada num postal.
Tudo está rodeado de uma perfeição quase mórbida, sufocante e uma estética cansativa e duvidosa - como é que alguém consegue ser criativo aqui?!? Onde tudo te absorve e te faz sentir imperfeito e indigno de tamanha imperfeição!?!
As duas primeiras semanas foram sem dúvida complicadas mas na cidade fantasma de Yerseke encontrei refugio na marina, onde pelo menos podia provar a ferrugem dos barcos.
Entretanto, a rotina torna-se dominante e incontornável. Com o despertador a tocar ás 04h da manhã e a trabalhar entre 8 a 12 horas por dia, não resta muita força, vontade ou sequer motivação para muito mais do que dormir e ceder ao cansaço. Habitualmente a semana termina apenas ao meio dia de sábado. Depois é altura de ir ás compras da semana à "cidade" mais próxima - Goes (deve ler-se ruje sendo que o "G" lê-se "RR"). Ainda no sábado seguem-se as limpezas e a roupa para lavar e com isto já é hora de jantar! Apenas o domingo consegue ser produtivo para o descanso mas infelizmente não para tudo o que se pensou fazer no tempo livre. Poucas são as forças ou a vontade para mexer qualquer parte do corpo... nem mesmo a mente!
Agora em Rilland o marasmo ainda é maior. Nem o ginásio enferrujado e perro, a mesa de ping-pong coxa ou os baralhos de carta amassados, são convidativos a contrariar a preguiça. Mas com o bar do hotel aberto e já com bebidas alcoólicas, o levantamento do copo parece ser a modalidade escolhida para anestesiar a insatisfação...