Sempre fui muito observadora mas hoje em especial usei o estado de observação porque preciso de escrever um guião que contém muito sobre relações interpessoais no quotidiano. Para o efeito nada melhor do que estar nos "sítios do costume" como o café e enquanto se toma o pequeno-almoço, perceber e absorver (não em forma de cusquice) as interacções.
Este café é pequeno, tem apenas uma mesa e é dirigido por senhoras a cima da idade dos 40. O café tem um aspecto cuidado, tudo muito bem pensado e apresentado, com uma pastelaria sempre variada e caseira, de salientar que é o mais barato das redondezas.
Escusado será dizer que um estabelecimento destes tem uma clientela fixa, sejam uns ao pequeno-almoço, sejam outros ao almoço ou apenas para o café da tarde mas já existem caras e histórias familiares àquelas simpáticas e ágeis mulheres atrás do balcão.
E como é agradável frequentar sítios assim, que ao final de uma semana de se frequentar, a interacção já tem outro à vontade... mas hoje, contrariando o hábito fui lá tomar o pequeno-almoço. Posicionei-me na ponta do balcão onde a visibilidade e audibilidade é privilegiada e observei... homens, mulheres praticamente todos eram clientes frequentes em que os sorrisos e o simples gesto de perguntar "Como está?" não era apenas uma banalidade mas vidas eram faladas e expostas como o caso específico de um senhor de mais idade que me tocou particularmente pela compaixão do seu sofrimento.
De olhos tristes, vermelhos e descaídos este homem era da altura do balcão... acima do balcão pouco mais se via do que o topo da sua boina. A Senhora que atendia atrás do balcão também não era muito mais alta mas era ágil e despachada, viu o Senhor aproximar-se do balcão deu os bons dias e questionou: "Então hoje vem sozinho?" - e franziu o sobrolho. Imediatamente ouviu-se um engolir em seco e percebeu-se o aperto que este homem sentia no peito: "A minha Senhora está muito mal..." - e o fôlego não deu para mais.
Seguiram-se uns momentos de silêncio... "Quer um abatanadozinho?" - e com o acenar da cabeça em jeito de confirmação, já que as palavras estavam afogadas nas lágrimas que ele com esforço conseguiu conter, a empregada diz: "... pois é, ora bolas! Isso é que não estava nos planos... ora bolas!". Afinal é daqueles momentos que não se sabe bem o que responder e no que toca ao sofrimento pela doença ou pela morte, a grandeza do homem em todas as suas conquistas pela História fora, se torna insignificante e consegue calar qualquer ego - afinal não temos resposta para tudo!
Claro que depois seguiram-se algumas perguntas de curiosidade sobre a condição da esposa deste homem mas ele como homem que é, depois de ainda lhe custar fazer o resto do pedido do pequeno-almoço, engoliu o choro e comeu em silêncio.
E eu pensava... "compaixão meu Deus"... apetecia-me abraçar aquela pessoa e dizer que Ele cuida de nós, que Ele em tudo tem a Sua Graça e o Seu propósito... que Ele é o nosso único bálsamo! Como me senti privilegiada por conhecer a Deus intimamente e de a minha vida não ser minha mas Sua.
Como sou tímida e no mínimo chamar-me-iam louca se fizesse aquilo que me visualizei a fazer, orei! Por entre as últimas dentadas no pão com manteiga, orei por misericórdia e graça para aquelas vidas... como se já não bastasse ter vivido, provavelmente quase 70 anos, ele estava na iminência de "perder" a "sua Senhora".
Vidas não são histórias, são factos concretos tecidos por uma linha muito ténue que não é nossa mas que pode ser fortalecida com Deus e pelo amor de um sorriso, de uma pergunta sincera de interesse pela vida de outro alguém... A indiferença é uma das fraquezas da existência mas o amor o seu maior trunfo!
Este café é pequeno, tem apenas uma mesa e é dirigido por senhoras a cima da idade dos 40. O café tem um aspecto cuidado, tudo muito bem pensado e apresentado, com uma pastelaria sempre variada e caseira, de salientar que é o mais barato das redondezas.
Escusado será dizer que um estabelecimento destes tem uma clientela fixa, sejam uns ao pequeno-almoço, sejam outros ao almoço ou apenas para o café da tarde mas já existem caras e histórias familiares àquelas simpáticas e ágeis mulheres atrás do balcão.
E como é agradável frequentar sítios assim, que ao final de uma semana de se frequentar, a interacção já tem outro à vontade... mas hoje, contrariando o hábito fui lá tomar o pequeno-almoço. Posicionei-me na ponta do balcão onde a visibilidade e audibilidade é privilegiada e observei... homens, mulheres praticamente todos eram clientes frequentes em que os sorrisos e o simples gesto de perguntar "Como está?" não era apenas uma banalidade mas vidas eram faladas e expostas como o caso específico de um senhor de mais idade que me tocou particularmente pela compaixão do seu sofrimento.
De olhos tristes, vermelhos e descaídos este homem era da altura do balcão... acima do balcão pouco mais se via do que o topo da sua boina. A Senhora que atendia atrás do balcão também não era muito mais alta mas era ágil e despachada, viu o Senhor aproximar-se do balcão deu os bons dias e questionou: "Então hoje vem sozinho?" - e franziu o sobrolho. Imediatamente ouviu-se um engolir em seco e percebeu-se o aperto que este homem sentia no peito: "A minha Senhora está muito mal..." - e o fôlego não deu para mais.
Seguiram-se uns momentos de silêncio... "Quer um abatanadozinho?" - e com o acenar da cabeça em jeito de confirmação, já que as palavras estavam afogadas nas lágrimas que ele com esforço conseguiu conter, a empregada diz: "... pois é, ora bolas! Isso é que não estava nos planos... ora bolas!". Afinal é daqueles momentos que não se sabe bem o que responder e no que toca ao sofrimento pela doença ou pela morte, a grandeza do homem em todas as suas conquistas pela História fora, se torna insignificante e consegue calar qualquer ego - afinal não temos resposta para tudo!
Claro que depois seguiram-se algumas perguntas de curiosidade sobre a condição da esposa deste homem mas ele como homem que é, depois de ainda lhe custar fazer o resto do pedido do pequeno-almoço, engoliu o choro e comeu em silêncio.
E eu pensava... "compaixão meu Deus"... apetecia-me abraçar aquela pessoa e dizer que Ele cuida de nós, que Ele em tudo tem a Sua Graça e o Seu propósito... que Ele é o nosso único bálsamo! Como me senti privilegiada por conhecer a Deus intimamente e de a minha vida não ser minha mas Sua.
Como sou tímida e no mínimo chamar-me-iam louca se fizesse aquilo que me visualizei a fazer, orei! Por entre as últimas dentadas no pão com manteiga, orei por misericórdia e graça para aquelas vidas... como se já não bastasse ter vivido, provavelmente quase 70 anos, ele estava na iminência de "perder" a "sua Senhora".
Vidas não são histórias, são factos concretos tecidos por uma linha muito ténue que não é nossa mas que pode ser fortalecida com Deus e pelo amor de um sorriso, de uma pergunta sincera de interesse pela vida de outro alguém... A indiferença é uma das fraquezas da existência mas o amor o seu maior trunfo!