Se eu fosse um vagabundo vestia-me como tu, cheirava mal como tu e muito provavelmente... também me sentaria à sombra e ficaria em silêncio e como tu deixava-me inundar (como se fosse imune a ela) pela música que sai do rádio a pilhas cheia de estática por não apanhar bem a frequência... e como tu não mudaria de posto.
Deixava que esse Jazz dos anos 60 fosse maior, maior que a minha miserável aparência e me fizesse reviver a grandeza do verdadeiro eu, melodioso e inspirado como ela...
... deixava que a música fosse uma extensão da minha presença naquela rua, naquela cidade... uma presença doce ou perturbadora, não interessa. Ali está a minha presença mas não a minha identidade!
Podes pensar que me conheces mas na verdade nem o cheiro que te repele te diz quem eu sou, porque este não é o meu cheiro.
Eu já cheirei como tu, sabias?! - Claro que sabes... achas que não porque não te apetece pensar... eu sei o que isso é... não querer pensar mas tu não sabes o que é estar no meu lugar.
Deixar as imagens, os sons, os cheiros, as sensações passarem ao lado... bem ao largo. O peso da existência está em todas as balanças mas não é para qualquer um, chegar ao profundo de mim é mais assustador do que o cheiro que em mim te repulsa.
Tudo pode ser efémero, menos o acto de existir... muito se pode desvanecer mas nem a morte dissolve a existência. Do que te importa o que vês em mim, se não me sentes??
A loucura que em mim vês, é minha e sei que perturba a tua, a loucura reprimida mas hoje sei que nem opressão, nem liberdade no seu todo nos conferem uma mente saudável... nem eu tenho controlo da minha nem tu conheces o sabor da tua...