sábado, 9 de maio de 2009

Almas de vidro...

De uma maneira geral, as pessoas que têm uma fragilidade ou deficiência física, desencadeiam em nós a compaixão e a necessidade de cuidados e protecção. Uns por acidentes que os colocam numa cama ou numa cadeira de rodas, outros que de nascença já trazem uma condição de dependência como a doença dos ossos de vidro... mas quantos de nós que nascemos saudáveis e fisicamente perfeitos, não acabamos por crescer ou desenvolver com os desgostos e dores, almas de vidro?! Não somos nós também dignos de compaixão, cuidados e protecção??
Por mais que nos traga algum desconforto, ainda vamos sabendo lidar com o que é visível como uma deficiência física. Até nos sentimos altruístas pela capacidade e vontade de fazer algo por essas pessoas, mas com uma alma, um interior despedaçado é muito mais intimidativo.
O nosso coração rejubila quando vemos as pessoas tomarem a decisão de quererem Deus nas suas vidas... o nosso trabalho como igreja é para eles, para quem precisa e ainda não conhece Deus intimamente. Colocamos o nosso melhor sorriso, fazemos a nossa oração mais fervorosa e quando a salvação acontece é maravilhoso! Mas e depois?... como cuidamos do que não é visível? Como reagimos, pondo em prática o amor perante uma alma de vidro?
Uma alma fragilizada por um percurso de vida singular (como o nosso) mas que pela sua sensibilidade tem sofrido fractura após fractura...
"Agora com Deus na sua vida já não tem desculpa!" - e descartamo-nos da nossa responsabilidade.
Passa a ter, sem dúvida, o maior médico especialista que alguma vez existirá, maior Amigo, Mestre, Pai... mas ninguém vive numa redoma.
Aos deficientes motores pomos uma rampa para as cadeiras de roda, pegamos neles ao colo, damos palavras de ânimo, procuramos fazer de tudo para que se sintam bem, incluídos e que a sua diferença passe o mais despercebida possível para que se sintam entre iguais. Queremos ser parte da sua força dando do nosso esforço... e então? Qual é o lugar das almas de vidro?
Não sabemos lidar com o interior uns dos outros... temos medo até de mergulharmos dentro de nós próprios e passando ao largo de nós mesmos, passamos inevitavelmente ao largo dos outros.
Poucos são os que querem colocar a rampa ou pegar ao colo as almas fracturadas, são poucos os que admitem e não escondem as fracturas da sua alma com medo da discriminação.
Pois as minhas fracturas sempre estiveram "escancaradas" e sempre assustaram os que me rodeiam e então se afastam... e então sofro mais uma fractura.
Mas hoje, acho que vou conseguir dizer basta! Não vou deixar de mergulhar dentro de mim, simplesmente não vou deixar que mais ninguém mergulhe se não for para ficar.
Entretanto, vou deixando Deus acalmar as águas da minha fragilidade para que possa continuar a ter a força suficiente para colocar a rampa não só aos corpos fracturados mas também ás almas de vidro e poder mostrar com as minhas cicatrizes que é possível transformar vidro em acrílico e que transparência não é necessariamente fraqueza.