terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Apagar a beata...

Dou Graças pelas poucas pessoas com quem partilho o meu coração e me amam como eu sou... e elas dizem-me: “protege-te” - elas sabem porque é que acontece eu falar, falar... e não fazer nada... é porque eu dou, dou e quando chega o momento de eu ter para mim... já não há.
Já não há forças, não há tempo, não há recursos porque já dei, dei para que os outros possam fazer para si.
Parece que afinal dar tem uma medida... pode ser a medida do calculismo ou da sabedoria e mesmo escolhendo a sabedoria, afinal o dar tem uma medida.
Agora é como aprender de novo a andar... na verdade é mesmo isso que está a acontecer depois de tudo ter dado para que outros tivessem força para andar, tenho apenas 2 recursos de energia para mim: as pessoas que verdadeiramente me amam e Deus.
Acabei por dar de mais e matei a flor com demasiada água... só precisamos de beber até onde vai a nossa sede.

Agora, o processo é encontrar novo sentido no acto e na medida de dar... dar pode ser uma energia renovável mas não é inesgotável principalmente se não for bem gerida.

E encontrar um novo sentido no eu mesmo quando não estou a dar...

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Os sítios do costume

Sempre fui muito observadora mas hoje em especial usei o estado de observação porque preciso de escrever um guião que contém muito sobre relações interpessoais no quotidiano. Para o efeito nada melhor do que estar nos "sítios do costume" como o café e enquanto se toma o pequeno-almoço, perceber e absorver (não em forma de cusquice) as interacções.
Este café é pequeno, tem apenas uma mesa e é dirigido por senhoras a cima da idade dos 40. O café tem um aspecto cuidado, tudo muito bem pensado e apresentado, com uma pastelaria sempre variada e caseira, de salientar que é o mais barato das redondezas.
Escusado será dizer que um estabelecimento destes tem uma clientela fixa, sejam uns ao pequeno-almoço, sejam outros ao almoço ou apenas para o café da tarde mas já existem caras e histórias familiares àquelas simpáticas e ágeis mulheres atrás do balcão.
E como é agradável frequentar sítios assim, que ao final de uma semana de se frequentar, a interacção já tem outro à vontade... mas hoje, contrariando o hábito fui lá tomar o pequeno-almoço. Posicionei-me na ponta do balcão onde a visibilidade e audibilidade é privilegiada e observei... homens, mulheres praticamente todos eram clientes frequentes em que os sorrisos e o simples gesto de perguntar "Como está?" não era apenas uma banalidade mas vidas eram faladas e expostas como o caso específico de um senhor de mais idade que me tocou particularmente pela compaixão do seu sofrimento.
De olhos tristes, vermelhos e descaídos este homem era da altura do balcão... acima do balcão pouco mais se via do que o topo da sua boina. A Senhora que atendia atrás do balcão também não era muito mais alta mas era ágil e despachada, viu o Senhor aproximar-se do balcão deu os bons dias e questionou: "Então hoje vem sozinho?" - e franziu o sobrolho. Imediatamente ouviu-se um engolir em seco e percebeu-se o aperto que este homem sentia no peito: "A minha Senhora está muito mal..." - e o fôlego não deu para mais.

Seguiram-se uns momentos de silêncio... "Quer um abatanadozinho?" - e com o acenar da cabeça em jeito de confirmação, já que as palavras estavam afogadas nas lágrimas que ele com esforço conseguiu conter, a empregada diz: "... pois é, ora bolas! Isso é que não estava nos planos... ora bolas!". Afinal é daqueles momentos que não se sabe bem o que responder e no que toca ao sofrimento pela doença ou pela morte, a grandeza do homem em todas as suas conquistas pela História fora, se torna insignificante e consegue calar qualquer ego - afinal não temos resposta para tudo!

Claro que depois seguiram-se algumas perguntas de curiosidade sobre a condição da esposa deste homem mas ele como homem que é, depois de ainda lhe custar fazer o resto do pedido do pequeno-almoço, engoliu o choro e comeu em silêncio.

E eu pensava... "compaixão meu Deus"... apetecia-me abraçar aquela pessoa e dizer que Ele cuida de nós, que Ele em tudo tem a Sua Graça e o Seu propósito... que Ele é o nosso único bálsamo! Como me senti privilegiada por conhecer a Deus intimamente e de a minha vida não ser minha mas Sua.

Como sou tímida e no mínimo chamar-me-iam louca se fizesse aquilo que me visualizei a fazer, orei! Por entre as últimas dentadas no pão com manteiga, orei por misericórdia e graça para aquelas vidas... como se já não bastasse ter vivido, provavelmente quase 70 anos, ele estava na iminência de "perder" a "sua Senhora".

Vidas não são histórias, são factos concretos tecidos por uma linha muito ténue que não é nossa mas que pode ser fortalecida com Deus e pelo amor de um sorriso, de uma pergunta sincera de interesse pela vida de outro alguém... A indiferença é uma das fraquezas da existência mas o amor o seu maior trunfo!